Tuesday, December 12, 2006

Astérix na Hispânia


Lá para os idos de 50 A. C., quando findava a sua guerra contra as Gálias, Júlio César fez orelhas moucas a várias exigências do Senado, o que lhe valeu ser por essa instituição romana ser exilado, caindo sobre a sua cabeça a pena de morete caso regressasse a Roma. pois o que fez o nobre guerreiro? Simplesmente, regressou. Para isso, atravessou o rio Rubicão, que fazia a fronteria do norte da Itália, lançando nessa altura a famosa frase: Alea jacta est! (ou seja, "a sorte está lançada!"). Com a travessia do rio, com os seus regimentos atrás dele estava, o general romano desencadeou uma dura e sangrenta guerra civil, contra os partidários do general Pompeu, que na altura governava Roma.
Pois com essa travessia, o grande humorista Goscinny fez um dos seus melhores trocadilhos, no livro Astérix en Hispanie. A páginas tantas, durante um Triunfo que lhe é dedicado, César, ao ver o seu prisioneiro bárbaro aplaudir o evento, perdoa-o. Dois mirones, a alguma distância, interrogam-se, na versão francesa da obra: "Que fait César?" Perguntao primeiro, ao que o segundo responde: "Il affranchit de rubicond!". Em português correcto, a tradução seria:
"- Que faz César?"
"- Indultou o rubicundo!"
Noto que em francês, rubicond (ruivo) e Rubicon, Rubicão, lêm-se da mesma maneira, estando assim o trocadilho feito! Tão orgulhoso estava Goscinny do seu feito, que o citou numa entrevista, e assim o repetiu, mais tarde, também a uma entrevista, Uderzo.
Pois é que, agora, a ASA editou o livro Astérix da Hispãnia, com uma tradução como é já habitual meramente sofrível e sem imaginação; e nesta, as tradutoras (elas dão o nome, logo assumem por inteiro a responsabilidade!) traduz o diálogo dos mirones da seguinte maneira:
"- Que faz César?"
"- O que lhe dá na gana!"
O seja, subtileza, qualidade, zero! De facto, o trabalho da tradutora é assim mesmo feito: conforme lhe dá na gana! Para com os leitores, o respeito está ausente!
À parte esta infeliz tradução, sobram os nomes traduzidos de novas personagens, pesados e sem graça, com a infeliz insist~encia de atribuir aos hispãnicos nomes que mais têm a ver com portugueses (Caldoverdon y Chouriçon). Menos mal é o facto de Pompeu ter o seu nome correctamente escrito, o que não aconteceu no livro Astérix e Latraviata, onde era chamado Pompeio (!). Uma das coisas mais graves que considero, no meio de tudo isto, é o possível facto de estarmos numa derradeira versão da série em portugês, o que fará que estas torpitudes ficarem, indeléveis, nas estantes dos incautos leitores...

* * *
Pouco antes da saída para a nossa língua deste livro, Astérix mereceu, por parte da ASA, mais duas edições: Astérix conquista a América e Astérix e os Vikings: não se trata de livros de banda desenhada, mas de banais - embora muito bem apresentadas! - edições livrescas de dois filmes que nem se quer se encontram actualmente nos cinemas; De leitura pesada e forçada, não fazem mais que relatar, de modo insípido, narrativas que, por sua vez, foram beber a inspiração e os factos a livros da colecção tradicional: A Grande Travessia e Astérix e os Normandos! O consumo destes dois livros é verdadeiramente desaconselhável!

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