Wednesday, May 17, 2006


Morgana e o Poço Misterioso – Sua génese e trabalhoDeve ser bem raro um autor começar um projecto do nada, sem ter em que se influenciar ou inspirar. No meu caso, isso é mesmo impossível. No que refere ao projecto Morgana, o primeiro arranque teve, antes, cinco anos de maturação. Passo a explicar:Foi nos inícios de 1999 que comecei a ter vontade de contar as histórias de uma pequena bruxinha. Mas quem seria ela, em que mundo vivia, quem seriam os personagens que com ela contracenariam, que histórias viveria? Seriam de ordem poética? Dramática ou humorística? Voltando-me para um aspecto “externo” do problema, mas não menos importante, para que público me interessava cativar? E contaria as histórias em banda desenhada, meu meio de expressão habitual, ou em histórias ilustradas, género em que na altura estava muito envolvido, de modo mesmo apaixonado?Em 1999 eu ilustrava, com muito gosto e com sucesso por parte do público, as aventuras do gato Zu. Eram livrinhos ilustrados que contavam historinhas que interessavam jovens leitores, sobretudo aqueles que ainda não tinham oito anos. Constatei por várias vezes que nessa idade os pequenos leitores começavam a desinteressar-se desses livros. E aí entrou em cena um forte factor formativo que muito me importa: constato, com muito pessimismo, a falta de gosto pela leitura que os jovens possuem em geral, geralmente pouco incentivados pelos seus pais e pelo ambiente social em que estão integrados. Não há, em Portugal, um cuidado por parte dos nossos governantes, em tentar alterar essa situação: que se tornem bebedores de cerveja e afectos do futebol, meio imbecis e com recalcamentos diversos, é o que desejam para as próximas gerações de eleitores, assim mais manipuláveis;Assim reflectindo, tomei por decisão que a Morgana – esse nome impôs-se-me quase de imediato! – pretenderia atingir um público leitor desde os oito anos em diante. A heroína tem, precisamente, entre os oito e os onze anos de idade, pelo menos nas primeiras histórias, que tenho já delineadas! Estando esse dado adquirido, fui dando largas ao meu desenho, esquiçando por vezes, ilustrando algumas ilustrações ainda totalmente descomprometidas, mas que em muitos casos me iam indicando possíveis rumos tanto narrativos como visuais a seguir. A pequena personagem ia-se impondo no seu visual, embora inicialmente parecesse mais com uma “Mafalda” com um longo chapéu enterrado na cabeça. Com o tempo, várias vezes me pareceu estar pronto para dar arranque a uma história, mas muitas hesitações me iam assaltando a principio ou no meio do processo, voltando sempre á estaca zero. Naturalmente, outras necessidades profissionais muitas vezes me iam distraindo, tornando o processo naturalmente lento. Mas no fundo até gosto assim: nunca consigo concentrar-me por muito tempo num só projecto, sobretudo se for um tema longo…A Morgana, por exemplo, em breve me descontentava na sua aparência: parecia-me uma Mafaldinha sorridente, com um físico pouco expressivo e difícil de animar. Sobretudo se viesse a encarar o trabalho de fazer uma banda desenhada, onde as personagens têm uma exposição visual muito mais frequente que num livro ilustrado, onde vão figurando em imagens mais exparsas, aquele corpinho deixava muito a desejar… Ainda tentei alterá-la um pouco, dando-lhe um narizito adunco, mas este parecia sempre meter-se dentro da sua boca…Entre 2003 e 2004 tive a grata oportunidade de desenvolver e ilustrar um pequeno suplemento infantil semanal, num jornal da nossa praça. As páginas centrais eram ocupadas por banda desenhada, para o que eu tinha muito material já feito, muito dele inédito, e outro que apenas necessitava de uma revisão, sobretudo nas cores… A dada altura esse material começava já a esgotar-se, e impunha-se-me deitar mãos à obra, fazendo novas bêdês… após algumas hesitações, pareceu-me que o projecto Morgana era o que tinha mais hipóteses de ser desenvolvido e levado a bom termo além que, com o seu universo cada vez mais presente na minha mente, estava em pulgas para lhe dar um arranque.Não sou um desenhador muito completo, longe disso. Gosto muito mais de desenhar umas coisas do que outras, além de que a minha formação autodidacta é, naturalmente, limitada! Por tudo isso, necessitava de alguém que me ajudasse a desenhar alguns dos fundos, principalmente na habitação da Morgana e da sua mestra, a bruxa ___. Felizmente, o meu amigo João Mascarenhas, que tem um talento de desenhador que não cansa de me surpreender, ofereceu-se generosamente para suprir essa minha carência. Foi mesmo ele que, quando eu comecei, em Maio de 2004 a terminar o texto da história, me convenceu definitiva e entusiasticamente, a decidir-me pela abordagem da narrativa em banda desenhada, pondo de parte o projecto em livro ilustrado… e assim foi que comecei o desenho nesse feliz mês de Maio, terminando a última página no último mês desse ano!Em Março de 2005 tive a oportunidade de entregar as páginas já com texto inserido e impressas ao director das edições Gailivro que gostou do material, e fez força para que o livro Morgana e o Poço Misterioso fosse editado em Outubro seguinte, durante o XV Festival de Banda desenhada da Amadora, onde teve algumas pranchas expostas, integradas numa exposição evocativa dos meus 30 anos de carreira, e teve bom resultado de vendas, tendo eu dado muitos autógrafos. Saliento ainda que em Abril desse ano algumas pranchas já tinham sido expostas no primeiro Festival de BD de Beja.À laia de conclusão, agora que tenho o primeiro livro da Morgana já nas livrarias, comecei a desenhar o segundo álbum, que se intitulará Morgana e o Castelo nas Nuvens, e tenho as sinopses dos dois seguintes, A Feira dos Monstros e A Maldição de Agonia, já prontas…*Mais alguns detalhes sobre o trabalho deste primeiro episódio: geralmente, começo um projecto pelo desenvolvimento e caracterização das suas personagens: isso interessa-me muito mais que as paisagens ou pela intriga propriamente dita, embora naturalmente não pretenda alguma vez descurar essas outras coisas… Assim, à medida que ia cozinhando o todo a fogo lento durante esses tais cinco anos, fosse ilustrando muito, sobretudo personagens. Alguns desses desenhos deitei fora, outros sugeriam-me personagens que poderiam vir a ter algum interesse para o projecto. A dada altura pareceu-me ter já um naipe de bonecos coloridos e interessantes, e “joguei” com eles, inventando a sua personalidade, e importância na trama… É um jogo de corte e costura a que me entreguei com muito divertimento, e considero ter tido bons resultados. Ficaram algumas personagens de fora, mas que certamente poderão ser úteis para histórias futuras…O “grande arranque” da história aconteceu sobretudo depois de esclarecer alguns pontos: a personalidade rebelde, voluntariosa e algo ingénua da Morgana, a decisão que o monstro das profundezas, Gombotma, pertenceria ao “lado dos bons”, e a ideia do enigma da Atlântida! Eram três factores muito decisivos e que me deram luz quanto ao tecer de outras ideias…Tomando essas decisões, senti-me seguro para escrever o resto do guião que, até à altura apenas tinha na forma de sinopse, com alguns buracos pelo meio. Não gosto de ter já tudo decidido quando começo uma história, receando que, com isso, me aborreça dada altura: é como para um leitor já conhecer as soluções e o final de um livro: para quê lê-lo, nesse caso? Por isso mesmo gosto de, ao longo de um trabalho ir-me surpreendendo com novidades que me vou impondo. Por exemplo, este velho corcunda com ar alucinado: foi um dos tais desenhos que fiz durante a maturação do projecto; pouco depois de o ter feito li um artigo no jornal Público, que alertava para a grave situação em que as águias reais se encontram no nosso país, estando à beira da extinção… Assim, intercalei uma cena com essa personagem a meio da narrativa, que ajudou a não tornar muito solitária a travessia do deserto da nossa heroína, que arriscava a passar seis páginas de um livro de 46, totalmente sozinha… Poderia ser arriscado para o ritmo narrativo, e tornar a cena muito maçuda para os leitores. Naturalmente, ajuda também a sensibilizar para a situação das já citadas águias…Há um conto popular que eu aprecio particularmente, e trata-se de “O Sábio que sabia tudo”. Sempre me irritou pessoas pedantes e arrogantes, sabichonas, com uma cultura inútil… Sou o mais possível partidário de uma cultura popular, em oposição a uma sabedoria erudita que apenas interessa a poucos “iluminados” que, fechados em pequenos grupos, partilham o seu saber como se numa sociedade secreta estivessem… Um desses intelectualistas escreve diariamente no Público e tentei inspirar-me nele para o misterioso Pradoc! Apeteceu-me irritar a pequena Morgana confrontando-a com um desses seres, numa altura em que a sua – dela – investigação carecia de novas informações… Além que essas situações com uma eventual “quebra” narrativa ajudam a tornar a leitura mais lenta, evitando que se leia tudo em cinco minutos e se fique com uma sensação superficialidade, quando se chega ao fim do livro… O Pradoc começou por ter muitas semelhanças com o dito senhor que escreve no tal jornal, mas assim sendo seria mais um gnomo, numa história onde entrariam mais dois seres dessa espécie… Assim, decidi dar-lhe outro tratamento visual, o que me criou muitos problemas durante algum tempo, sendo as várias abordagens visuais que efectuei pouco satisfatórias… Foi com a escrita da segunda aventura da Morgana, que efectuei em grande parte no verão de 2004, que decidi o modo de abordar o personagem, sendo que ele – e os da sua raça – virão a ter um papel preponderante no próximo livro… No final das contas, o Pradoc acaba por ser uma figura mais simpática do que eu inicialmente previa…Os meus filhos tiveram um papel preponderante no retrato de algumas das personagens deste livro: A minha filha, que na altura tinha entre 4 e 5 anos, inspirou-me em muitas coisas para a Morgana, e o meu filho, que tinha então entre 1 e 2 anos, foi-me muito útil para a personagem do Meco!A bruxa Malveta e o Meco tiveram origem num dos desenhos feitos no tal período de gestação. A Malveta, devido ao seu enorme nariz e à sua fisionomia algo estática foi muito difícil de desenhar, havendo ângulos muito complicados para desenhá-la. Personagens como esta são de se evitar ao máximo, e foi para mim um descanso quando terminei o seu último desenho! Provavelmente não a incluirei em mais história nenhuma! Numa época em que tanto em livros como filmes, os “maus” das histórias acabam sempre por ser punidos com a morte – e há cada morte espectacular! – achei que o castigo da Malveta seria bem pior: que pode haver, para um jovem leitor, de mais perturbante que uma personagem que, derrotada, começa a chorar compulsivamente, sem não mais parar?*Já referi alguns aspectos da escrita deste livro. Acrescento agora que, de modo geral, abordo esta fase do trabalho de modos diferentes: Quando escrevo uma história do gato Zu, por exemplo, não começo a sua ilustração senão quando já tenho tudo escrito: como tudo tem que caber no restrito espaço de 22 páginas, não quero cometer o erro de estender-me demasiado… Com a banda desenhada, tenho feito de outros modos: dantes, com as aventuras de Orn Bigom, seguia apenas uma linha de acção bem elaborada, trabalhando cada episódio á medida que o abordava. Com a série Dakar o Minossauro, escrita por Luís Diferr, um profissional muito competente e consciencioso, era-me entregue o texto de todo o livro com todas as páginas descritas, todas as vinhetas elaboradas até ao mais pequeno detalhe tendo, por vezes, o guionista sugestões a fazer quanto a cores ou ângulos de visão, por exemplo. Havia, por vezes, até a indicação dos pontos cardeais, para sabermos como seria a cor, de acordo com a localização do sol…Pessoalmente não sou assim tão exigente. Quando escrevo para outro desenhador, quero surpreender-me com a sua abordagem, deixando-o com mais rédea solta. Descrevo tudo mas não interfiro no desenho. Pelo que me toca, por exemplo, noutra série que abordo, a das Aventuras de Homodonte, assim que tenho as personagens e algumas peripécias, deixo o desenho correr, num improviso algo controlado mas que me dá muita liberdade.No que refere à Morgana, talvez devido ao imenso tempo que demorei a ir fazendo o livro, habituei-me a elaborar ao máximo todos os detalhes, mesmo aqueles que deixo para o fim. Mesmo a abordagem visual…*Na verdade, estes anos de trabalho permitiram-me muita reflexão no que toca ao desenho e aos problemas que lhe dizem respeito. Adoptei, de modo geral, um desenho com longas linhas elegantes, com curvas graciosas, visto a principal personagem ser do sexo feminino. A esquematização das pranchas obedece a um padrão clássico, com vinhetas bem delineadas e seguidinhas umas após outras, visto o livro conter tanta informação, que se torna difícil permitir-me muitos espaços em branco ou abertos, com o risco de quebrar o seu ritmo.Modo geral, faço esquiços em folhas A4 de cada prancha, tentando sempre “arrumar” as vinhetas e os elementos mais importantes de um modo articulado que facilite a leitura o mais possível. Desconcerta-me quando tenho pela frente um livro de banda desenhada que, por mais bonito que seja, tenho que andar com ele ás voltas até perceber um simples encadeamento entre duas imagens; por isso, não quero que isso aconteça a um leitor. Se ainda por cima este for ainda jovem, tenho que ter em conta que pode estar numa fase de aprendizagem na leitura da BD, o que me responsabiliza muito mais para a sua total compreensão.À parte, mas ainda em folhas A4, vou desenhando, com a máxima atenção, imagem a imagem, sobretudo as que me apresentam mais dificuldade na sua elaboração, assim como algumas personagens, suas poses ou fisionomias. Pode algumas vezes dar-se o caso de não fazer nada disso pela razão inversa ou seja, algumas partes da história não me oferecerem dificuldade alguma.No que se refere ao trabalho com o João Mascarenhas, tenho que me reunir com ele e explicar, com toda a clareza possível, o que pretendo dele. Quando por fim ele me entrega o seu desenho, fá-lo com o traço a lápis, para “sofrer” qualquer modificação eventual que me ocorra, e para, aquando da passagem a tinta, trate eu desse trabalho no seu todo, para conferir o máximo de homogeneidade e coerência possível. Detestaria que um leitor se embraraçasse com uma irregularidade no desenho, que o fizesse parar, mesmo que por pouco tempo, a leitura…Geralmente desenho a prancha definitiva num formato próximo do A3, começando o desenho pelo canto inferior direito: é que, sendo canhoto, evito – nunca totalmente – borrões com a tinta da china. Habitualmente, para uma banda desenhada recorro ao papel Cançon com alguma rugosidade, próprio para o desenho a tinta da china que, habitualmente, uso da marca Pelikan. Mas, antes de passar ao uso da tinta, faço os desenhos em papel vegetal: aí apuro ao máximo as posições, expressões, enfim, todos os detalhes importantes num desenho. Depois de estar contente com esse desenho, que por vezes acontece ter muitas versões até me satisfazer, decalco-o para o espaço apropriado na prancha.Passo a tinta com uma caneta de aparo das clássicas, com um bico razoavelmente flexível mas nunca demais: raramente desenho a pincel. Tenho um vago tremor nas mãos, e isso, se bem que por um lado conferisse uma expressividade talvez interessante, não daria a precisão que eu procuro num desenho.Uma vez a prancha desenhada e passada a tinta, tiro uma fotocópia com qualidade, reduzida ao formato A4. Depois, digitalizo-a e trabalho-a no computador. Uso exclusivamente o programa Adobe Photoshop, onde corrijo e apago todas e quaisquer imperfeições que por vezes possam suceder: pinhgos de tinta, dedadas, traços hesitantes… Depois, passo a colorir. Durante muitos anos pintei com guache ou Ecoline, um derivado da aguarela, mas desde que comecei a explorar o computador fidelizei-me ao seu uso na cor. Ficam estas mais vivas, limpas, de mais fácil leitura! Uso o referido programa para fazer alguns efeitos de luz, degradés, para trocar alguns traços negros por uns de cor, mas de modo geral evito demasiados efeitos que possam transformar um desenho num simples mas vistoso efeito que retire alguma sobriedade ao todo e o torne de difícil leitura…Entretanto, tenho o texto todo escrito, balão a balão, usando para isso uma atenção exaustiva. Depois dou-o a ler a várias pessoas: estando eu muito envolvido no proesso, acabo por nem sempre ser o melhor para reparar em eventuais más escritas no que toca à sintaxe, a certas subtilezas que para mim podem parecer evidentes, mas que podem não o ser para os leitores…Finalmente, quando tenho todas as pranchas desenhadas e coloridas, e o texto pronto, “enfio” o todo em alguns Cd’s e envio para a editora… nesta novas revisões ao texto são feitas, as imagens são verificadas até à exaustão para tentar não deixar passar qualquer erro que seja, e finalmente um designer fará a paginação e o arranjo gráfico… Finalmente dá-se a impressão do volume e, posteriormente, a venda dos livros…

1 Comments:

Blogger Sonia Sarrico said...

Pois é, adoramos o livro. Desde a nossa pequenina com 6 anos a nós pais.
Muito bem ilustrado, com desenhos interessantes que fazem as crianças ver a história, mesmo sem saber ler.

Parabéns pelo Blog.

Sónia Sarrico

2:30 PM  

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